No âmbito dos seus 15 anos, a Antena 3 promoveu uma votação para saber quais os melhores albuns dos últimos 15 anos. A lista começa com "O Monstro precisa de amigos" dos Ornatos violeta, segue com "silence becomes it" dos SIlence 4 e termina o pódio com "Beatsound Loverboy" de Slimmy. Este não era, definitivamente, o meu pódio, mas não é disso que aqui vamos falar. Nesta votação vem ao de cima uma questão muito importante na forma como a música é divulgada e ouvida desde há uns anos pra cá.
As novas tecnologias (internet,lógicamente á cabeça) têm cada vez mais relevância na divulgação da música. Prova disso, disse Henrique Amaro no comentário á votação, é o 3º lugar de Slimmy. Não menosprezando o trabalho de Slimmy, concordo com essa opinão. Aproveitando um concerto a 30 minutos de casa,quis saber a opinião dele. Depois de um bom concerto, (não sou um fã incondicional, mas gosto de ver os concertos de slimmy, sempre muito próximos do público), com muito electro-glam-rock a brotar por aquelas guitarras afiadas, fui ao backstage falar com uma das estrelas ascendentes da música portuguesa. Questionado sobre a votação, e confrontado com os comentários de Henrique Amaro, Slimmy foi directo e pragmático. "Eu dou-lhe razão(...)mas se calhar é mais correcto dizer que o nosso público é mais fiel, também porque nós sempre fizemos questão de estar perto do público em cada concerto, seja em Londres seja na Póvoa de Lanhoso. Não querendo rebaixar o trabalho de outras bandas, se calhar ainda há em muitas bandas aquela coisa do "eu sou a estrela, eu estou cá em cima, e o público está lá em baixo, longe", coisa que nunca se passou com os Slimmy".
Boa resposta, em minha opinião. Sem embandeirar em arco, expôs os seus argumentos e defendeu o seu ponto de vista.
"As músicas são boas, se calhar podia lançar um single por mês, quase todas as músicas do disco podiam ser singles." È um facto. Ouvir beatsound loverboy é agradável. È um albúm pop bem feito, com boas melodias, ás vezes bem arranjadas(outras não) na sua componente mais electrónica e com aquele rock a fazer lembrar o Glam (ou se calhar é mais impacto visual). Não gosto particularmente daquelas guitarras "á kiss", aqui e ali a roçar o rock de secundário americano.É aqui, em minha opinião, que Slimmy peca. No excesso. Com letras interessantes e uma melodia pop boa, os excessos nos riffs e em alguns arranjos fazem aquilo parecer muito artificial.
Falamos um pouco também do novo álbum, a sair em Setembro. "Estamos nas primeiras sessões, e está a sair uma coisa mais rock(...) embora com o adiantar da produção seja previsivel que o meu lado mais electrónico venha ao de cima."
Digo eu, que sou meio leigo nestas coisas, que o melhor é ficar com um olho neste(s) senhor(es), porque com o amadurecer da coisa pode ser que surja algo bom daquelas sessões.
Uma pequena palavra para confirmar a proximidade de Slimmy com o público. No final do concerto era vê-lo no recinto da "Queima das Fitas ISAVE 09" a falar e a beber um copo com o público que minutos antes o aplaudia e apoiava a altos berros na plateia.
A Geeks Generation produziu uma pequena estrela, que não tem problemas em fazer suas as palavras de Ian Brown (STONE ROSES) : I wanna be adored.
Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Geeks Generation
Terça-feira, 28 de Abril de 2009
Paulo Bragança, o Punk
O ser é Paulo Bragança, o disco é Amai.
Não estava preparado para o que ia ouvir. Paulo Bragança serve-se do disco para transgredir, revolucionar, desafiar, misturando no mesmo espaço tradição, modernidade, tabus. Sempre numa postura provocatória e iconoclasta. Por entre uma versão de "Adeus" dos Heróis do Mar e uma outra absolutamente fantástica de "Sorrow´s Child" de Nick Cave, vira o fado de pernas para o ar. Consegue evocar o Portugal dos descobrimentos da mesma forma que evoca o Portugal profundo do Norte, umbilicalmente ligado à Galiza. E assume-se descaradamente como ser andrógino.
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Music for a new Society
Ainda falaremos mais de John Cale aqui, mas para já contento-me em roubar-lhe o título de um álbum para falar da revolução em curso.
All my friends who used to be on major labels, what they do now is go in their basement and record really cool songs. They're really great. I like them better than their major-label records, maybe 'cause they're closer to the demo stage. They sell them at shows. I've got a couple of friends who were dropped by major labels who did that, and they said, "You know what, I made more money this year than when I was on [name the label], 'cause I'm making these records for free on my 8-track, pressing them up at $1.20 apiece and selling them at shows for $10, and I press up 5,000 of them and sell them in a year." I just think that's great.
Listen, I'm not worried about it. I think it's an interesting phenomenon. Anything that gets my records to more people is exciting for me.Hoje são já incontestáveis os fenómenos de rede, o efeito de passa palavra e o marketing viral que nos revela, vindos sabe-se lá de que cave, artistas que têm o seu culto, vão dando espectáculos e crescendo como ervas daninhas à revelia das grandes editoras. Alguns(poucos) artistas da geração anterior começam também a aperceber-se da força brutal desta segunda geração da internet, cujos conteúdos não são já produzidos em meia dúzia de conglomerados mediáticos, mas sim pelas teclas de milhões de entusiastas que estão a condenar os meios de comunicação tradicionais a uma morte lenta.
“We’re in between business models,” he continued. “You know, the old record labels are dead, and the new thing hasn’t really come out yet. So, I’m hoping that whatever gets established puts a lot more power in the hands of artists and more revenue.”
- A compreensão de como a divulgação funciona em rede, e de como o conjunto de malhas que se vão estabelecendo e servindo de apoio a um artista se tecem a partir de uma habilidosa política de relações públicas, que potencie a geração do conteúdo sob várias formas e em diversos suportes(muitas vezes por terceiros, alheios à envolvência dos artistas). Esses nós acabarão por se interconectar e produzir um efeito sinérgico de contaminação por referenciação enorme. O artista é falado em blogs, no twitter, tem fans no facebook, vídeos no youtube, página no myspace, etc. Todos estes meios têm o poder de serem referenciados e associados, e de link em link a aranha vai apanhando mais um curioso e o artista vai construindo a sua comunidade. Nunca a frase do Sérgio Godinho «Isto anda tudo ligado» fez tanto sentido;
- A comunidade precisa de conteúdo para se manter activa, por isso há que criar acção, ser proactivo e fazer a palavra circular, reforçando positivamente as sinapses que se vão criando a partir da voz daqueles que passam a palavra;
- A reputação é fundamental. No meio de tanto lixo, a única maneira de separar o trigo do joio será(e vai sendo crescentemente) via mecanismos de reputação. A reputação levará o artista a emergir em meios mais massificados de divulgação por referenciamento dos fazedores de opinião. A falta dela poderá levar à fama, mas à fama pelo avesso(ou ridículo). É ténue a linha que separa um extremo do outro.
Domingo, 26 de Abril de 2009
Dr. Optimista
Ontem, armado em jornalista fui á "Queima das Fitas ISAVE 2009" assistir ao concerto dos GNR. Um concerto esforçado e profissional, preocupado em conquistar um público dos anos 00', que vibrou com "Albufeira" mas não sabia a letra de "Video Maria". No final, uma pequena conversa com o gentleman Reininho serviu para divagar pouco plo concerto e muito pla música.
Começamos a conversa a falar do Tiago Guillul, com quem o Rui Reininho tem tido algumas parcerias. Reininho desfez-se em elogios ao "gang" da FlorCaveira, enaltecendo a veia criativa e inovadora do pessoal de Queluz e S.Domingos de Benfica. Uma pequena palavra para o concerto, quando perguntei qual era a diferença de tocar para um público como o de ontem, e tocar para um público que "vai" pa ver os GNR. Reininho disse que retira prazer dos dois. "É bom ver gente com 18 anos a cantar a nossa música. Nós e a nossa geração, com os Xutos, os Rádio Macau, entre outros carregamos desde sempre esse fardo, marcamos um rock português que se tornou transgeracional".
Uma palavra final para o albúm "Companhia das Indias", com um síngle provocador e duas músicas de destaque: "Morremos a rir" e "Dr. Optimista". Reininho concorda!"O single é sem duvida uma provocação"."Sim,são duas músicas que gosto muito".
Um reininho sempre diplomático despede-se cordialmente, não sem antes perguntar qual era o blog, "pa ir dar uma vista d'olhos".
Valeu a pena a espera de mais de meia hora para entrar no Backstage.
Sábado, 25 de Abril de 2009
He's a man Obsessed
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É impossível ver o documentário «The Devil and Daniel Johnston» sem, em primeiro lugar, se ser esmagado com tamanha humanidade, e sem sentir empatia com aquela pessoa que sofre. O trabalho genial é infelizmente um subproduto do seu sofrimento, mas também o mantém vivo e a nós, seus espectadores e voyeurs, leva-nos a lugares onde a nossa cabeça jamais iria sozinha.
A música de Johnston é, superficialmente, ingénua tal como a sua voz quase angelical, mas as suas obssessões e as suas lutas emergem a cada verso e a cada desenho, nunca nos deixando esquecer que aquela música e aquela arte carregam um ser humano dentro.
Ouçamo-lo e admiremo-lo.
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Mau Tempo\Bons Tempos

Abro este post a dizer que ontem tive mais uma noite de rock&roll na companhia dos Smix Smox Smux. Tive os meus 2 minutos de fama(o Warhol enganou-me, foram só 2 minutos em vez dos 15 prometidos) em palco, a fazer de Palas na Intifada.
Mas não foi pra isto que cá vim hoje. O meu fiel companheiro diário tem consigo hoje uma reportagem\entrevista sobre\ao Otelo Saraiva de Carvalho. É uma entrevista extensa e bem elaborada, e uma história contada pelos olhos e pelas palavras do próprio. Otelo não é uma figura consensual, é o pensador por trás do 25 de abril, mas também o comandante em chefe do COPCOM. È o homem que nos libertou do regime da velha senhora, mas é também aquele que aparece associado ás FP-25 (sempre ficou tudo um bocado dúbio, como é apanágio da justiça portuguesa). Admiro o homem que teve a coragem de fazer a revolução acontecer, mas incomoda-me e repugna-me pensar que ele esteve por trás de atentados que vitimaram inocentes.
Otelo é hoje um homem com 73 anos, visivelmente velho e desgastado. Como diz o Público, voltou a ser o "gajo porreiro" de outros tempos, embora ainda guarde alguma mágoa por tudo o que se passou depois da revolução.
Aconselho todos a lerem a reportagem\entrevista e o brilhante editorial do José Manuel Fernandes no Público de hoje.
Para o final fica uma frase que alguém me disse que alguém disse na manhã de 25 de abril de 1974.
"E agora ficamos com o tempo: No Porto está um belo dia de sol, e em Lisboa saraiva de caralho"
Complexo de Épico

Era 1998, decorria a grande exposição de Lisboa; cansado de palmilhar terreno ansiava ainda por uma última satisfação: o concerto de David Byrne na praça Sony. Bem, não era bem um concerto de Byrne, porque tinha a participação do Angolano Waldemar Bastos e de um outro desconhecido: Tom Zé.
A experiência de tanto esperar para no final assistir à entrada de Byrne, que cantou o grande hit «I wanna love somebody» de Whitney Houston(para se pirar de seguida) não foi a mais compensadora, mas aquele brasileiro ficou a bater cá dentro.
Tom Zé é um tropicalista original, com Caetano, Nara Leão, Gil, Gal Costa ou os mutantes. É das pessoas com o pensamento mais excêntrico que tive oportunidade de escutar, tanto na música como em entrevista. É urgente ouvir a sua entrevista a Carlos Vaz Marques da TSF para o programa «Pessoal e Transmissível» enquanto está disponível. O seu pensamento original é um daqueles gatilhos que despoleta a projecção da nossa mente em todas as direcções.
Tom Zé andou apagado das edições e dos espectáculos quase duas décadas até Byrne ter redescoberto o seu «Estudando o Samba» e o ter contratatado para a Luaka Bop. A sua música, quantas vezes experimental, sempre provocatória, destila génio puro e inteligência. Tom Zé nunca sai do meu Ipod, e a ele acorro quando me quero rir do mundo e de mim mesmo.
Ora aqui vai a receita para o narcisismo da qual, ao que vejo, nem só os compositores brasileiros estão precisados:
Todo compositor brasileiro
é um complexado.
Por que então esta mania danada,
esta preocupação
de falar tão sério,
de parecer tão sério
de ser tão sério
de sorrir tão sério
de chorar tão sério
de brincar tão sério
de amar tão sério?
Ai, meu Deus do céu,
vai ser sério assim no inferno!
Por que então esta metáfora-coringa
chamada "válida",
que não lhe sai da boca,
como se algum pesadelo
estivesse ameaçando
os nossos compassos
com cadeiras de roda, roda, roda, roda?
E por que então esta vontade
de parecer herói
ou professor universitário
(aquela tal classe
que, ou passa a aprender com os alunos
- quer dizer, com a rua -
ou não vai sobreviver)?
Porque a cobra
já começou
a comer a si mesma pela cauda,
sendo ao mesmo tempo
a fome e a comida.
Sábio Povo
A toda a parte chegam os vampiros
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
De golpear à faca

Pegamos no krautroc alemão, somamos tecnologia digital e agitamos bem, levamos ao congelador sueco et voilá, temos «Silent Shout», dos «The Knife». Viagens gélidas sobre uma paisagem apática. Maquinaria viciante e desprovida de emoção. Ás vezes sabe bem não sentir nada. Não há aqui nada para sentir, mas é difícil para de ouvir.
Terça-feira, 21 de Abril de 2009
The ones I Love

1992. Quatro estudantes numa Renault 4L. O costume: ponderar, entre a Cividade no centro de Braga onde o dono de tão pitoresca viatura habita, e o Centro de Formação onde todos estudam se é dia de faltar às aulas para ir até junto ao mar em Esposende. No rádio roufenho - a condizer com o luxo da carrinha que tinha o gasóleo gerido à gota(impressionante carrinha que tinha dois tipos de combustível: o gasóleo e a energia cinética dos seus ocupantes), - no rádio roufenho, dizia eu, uma k7 com as últimas modas, entre elas uma música muito em voga: «losing my religion». Foi o meu primeiro contacto com os R.E.M.
O tempo passou(não muito), e num canal que antigamente passava música(MTV acho que se chamava isso) existia um programa de concertos acústicos, e aí vi, como numa espécie de revelação a verdadeira grandeza dos R.E.M.
Jamais tinha sentido tal identificação com uma banda. Uma postura humilde(até pediram desculpa por terem de passar uma letra ao computador), duas guitarras acústicas, uns batuques, baixo acústico, um orgão e aqui e ali um bandolim. Das músicas, a maior parte delas desconhecia completamente, mas causaram uma explosão de emoções e imagens em mim(apesar de não perceber da missa a metade, no que às letras dizia respeito). Revi esse concerto umas cem vezes e esfolei os dedos as vezes suficientes até aprender a tocar as músicas, essas que ainda me transfiguram ao escuta-las.
Desse unplugged viajei no tempo até ao passado dessa banda que já tinha surpreendentemente dez anos de estrada. Os R.E.M. dos anos 80 são uma banda indie cheia de grandes canções e com o único guitarrista capaz de competir com Johnny Marr. Os R.E.M. dos anos 90 são uma super banda lutando para se afastar do âmbar agridoce da fama. Adoro os cinco álbuns da mesma forma, todos encerram uma parte da verdade da banda, e uma postura sempre honesta para com os seguidores. Com os R.E.M do novo milénio sinto-me o mais próximo possível do estado de espírito de um benfiquista: o próximo álbum é que vai ser, mas parece-me que tem sido sempre a descer, e eu não quero aceita-lo. Acho que já não são uma banda.
Curiosamente vejo algum daquele espírito R.E.M. em novas bandas que vão aparecendo aqui mesmo no nosso cantinho: ousadia e trabalho, muito trabalho. Pode ser que me vão preenchendo este vazio imenso que os R.E.M. me deixaram.
Mas no próximo álbum eles vão renascer...
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
Smix Smox Smux

Os Smix Smox Smux vão em breve lançar o seu álbum de estreia. Até aqui os SSS eram aquela banda que até tocava bem, tinham umas letras engraçadas e arrasavam qualquer palco de norte a sul do país.
Era bom, mas principiante. Agora a pedra é outra. Blues rock muito bem tocado, aqui e ali as letra continuam semi - adolescentes, mas desengane-se quem pensa que isto é rock de secundário, eles não dão ponta sem nó.
Aconselho uma visita ao myspace para dar uma espreitadela ao que aí vem e ao que até aqui foram os SSS.
Músicas como a Intifada, Famel Zundapp ou a novíssima Malinha são rock pa gajos de barba rija.
A par d'Os pontos negros, Tiago Guillul, Feromona e aquele inevitável pessoal de Coimbra (d3O, Bunnyranch, Tigerman, Sean Riley&The Slowriders, etc), os SSS são o momento e o futuro do rock português.
Sem Roques, sem Popes e sem pseudo-salvadores da pátria perdida.
http://www.myspace.com/smixsmoxsmux
Domingo, 19 de Abril de 2009
Tony Wilson entrevista The Smiths

Encontrei esta pequena pérola escondida no Youtube.
Tony Wilson (o senhor factory e tudo o que isso acarreta) entrevista os Smiths (que ele diz terem sido o único erro que cometeu enquanto "CEO" da Factory).
A entrevista é curta mas interessante, e nota-se uma pequena mas faiscante fricção entre o Tony Wilson e o Morrissey.
Vejam, vale a pena.
God Save The Smiths!
O Rock não está perdido
Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Elegias de Duíno, Segunda Elegia(excerto)
Errantes

Li no suplemnto do Público P2 da passada 3ª feira uma reportagem sobre a condenação de Harvey Phillip Spector (AKA Phil Spector) pelo assassinato, em 2003, de uma ex-actriz de filmes de Série B, Lana Clarkson. Nessa reportagem era traçado o perfil psicológico de Spector. Phill Spector é assim puxado ao louco. Diz-se que quando a sua mulher, Veronica Bennet, vocalista das Ronettes, estava em digressão, ele a obrigava a dormir com o telefone ligado, fora do pouso, para ouvir a sua respiração. Spector é um génio louco e desiquilibrado, e já toda a gente sabia disso. Spector é o génio que inventou uma coisa que se chama wall of sound, que consiste em gravar várias camadas de instrumentos, sobrepondo-as e dando uma densidade muito maior á gravação, assemelhando-a a uma orquestra (é mais ou menos isto). Spector é o génio que produziu álbuns com Let it Be dos Beatles, Imagine do Lennon,Death of a Ladies' Man do Leonard Cohen(ter-lhe-á apontado uma arma á cabeça) ou ainda End of Century dos Ramones(reza a história que um dia os sequestrou no estúdio) .
Esta breve introdução serve para constatar (o óbvio) que muitos daqueles que admiro, principalmente ao nível da música, são de algum modo desiquilibrados.
Ian Curtis viveu a sua curta vida atormentado, deprimido, acabando por se suicidar aos 23 anos. Foi esse desiquilibrio que tornou os Joy Division o marco que hoje são. As letra nuas, cruas e negras de Curtis são a essência da música dos Joy Division (Martin Hannet fez o resto).
Jim Morrison é o que todos sabemos, outra alma atormentada que viveu toda uma vida de excessos, talvez numa tentativa de diminuir essa "dor na alma" que com ele carregava. A letra original do The End contém uma referência(clarissima) ao complexo de Èdipo.Father, yes son, i want to kill you, mother, i want to fuck you (quem não se lembra da cena do biopic The doors em que o dono de um bar onde os Doors tocaram expulsa Jim da sala e lhe diz: "cabrão, na minha casa ninguém come a mãe!!!"
Podia continua esta lista, passando por Jorge Palma, Iggy Pop, David Bowie (um dos meus irmãos costuma dizer que bowie é um freak, vive noutro nível, outro diz que It's work, all that matters is work. ),Kurt Cobain, Van Gogh(fugindo um pouco á música) Edgar Allen Poe, Tennesse Williams, enfim...Muitos...
O que torna este assunto um bocado obsceno é que na maior parte das vezes são esses desiquilibrios que tornam estes senhores génios de outro mundo, que fazem com que nós os admiremos.
Alguns conseguem viver com isso, e ultrapassar ou minimizar os danos dessa loucura, genialidade, desiquilibrios. Outros não, como Curtis, Kurt Cobain, ou Van Gogh.
Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Berlim - cidade mítica do rock II - The Idiot

Ainda deve andar lá pelas prateleiras do meu pai, O Idiota. Não me estou a referir a nenhum dos meus irmãos, claro, mas sim ao romance de Dostoyevsky que li há já um bom par de anos. Míchkin é um príncipe russo, que sofre de epilepsia e regressa à Rússia, depois de se tratar na Suíça, para receber uma herança. É o protótipo do homem bom e humilde, mas isso só serve para que os outros o tomem por um débil e um idiota.
É por Bowie, Visconti e Iggy Pop conhecerem este livro que o primeiro álbum da fase berlinense de Iggy Pop e David Bowie tem por título 'The Idiot'. Embora lançado após 'Low' de David Bowie, 'The Idiot' é gravado antes, e é o balão de ensaio de Bowie para um novo estilo de música que lhe interessava, de matriz essencialmente europeia e electrónica, cuja face mais divulgada foram os Kraftwerk. Bowie afirmaria depois que, não tendo cabeça para escrever e estando a recuperar de uma fase terrível de dependência, fez do pobre Iggy sua cobaia. Mas pelo que saiu, não me parece que ninguém tenha ficado a perder.
'Sister Midnight' havia já sido escrita por Bowie e Carlos Alomar, e até tocada na tourneé de 'Station to Station' no início de 76. Quando assentaram arraiais no Château d'Hérouville, onde préviamente Bowie tinha gravado 'Pin Ups', Bowie e Pop recrutaram Laurent Thibault no Baixo e Michel Santageli na bateria para acrescentarem partes ao material já gravado por ambos. Em Agosto as gravações continuaram em Munique com Phil Palmer, que cunharia a relação criativa entre Bowie e Pop como «vampírica» visto os dois só serem vistos no estúdio à noite. Por fim são introduzidos overdubs e a mistura é concretizada nos estúdios Hansa em Berlim, para onde Bowie tinha sido convidado a ir por Romy Haag(uma pessoa exótica, sem dúvida).
Este álbum, como muitos dos álbuns mais criativos, incluindo alguns dos dias de hoje, cumpriu um requisito: foi feito às três pancadas, sem produção e puramente guiado pela criatividade. 'Nightclubbing' foi escrito e gravado numa noite depois de os músicos terem saído. Bowie começa a tocar no piano com uma caixa de ritmos por trás. Pop escreve uma letra em dez minutos e cá vem uma grande música. Bowie quis tirar a caixa de ritmos mas Pop não deixou. Ainda bem que o fez pois grande parte do hipnotismo dessa canção vem dessa batida sincopada. 'Dum Dum Boys' é escrita a partir dos longos monólogos de Iggy descrevendo as suas venturas e desventuras com os Stooges, e 'China Girl'(sim, primeira versão dessa que estão a pensar) nasce de uma paixoneta de Iggy pela namorada de outro parceiro que estava a gravar ao mesmo tempo naquele estúdio.
Tony Visconti considera a mistura deste álbum como uma operação de salvamento, tal era a qualidade de gravação do material. Resultado? Um dos melhores álbuns de Iggy Pop, embora nada representativo do conjunto do seu trabalho.
Iggy Pop faz uma digressão de 'The Idiot', que Bowie diz ter sido carregadinha de drogas(embora outros músicos afirmem que é só treta), e leva um pianista de luxo - o próprio Bowie. Ainda me lembro de ler a surpresa de Ian Curtis, prestes a iniciar a sua saga com a Joy Division - na biografia 'Carícias Distantes' escrita pela sua mulher, - quando vai ver Iggy Pop e vê o seu ídolo sentadinho ao piano a só abrir a boca nos coros.
Uma última nota: 'Mass Production'. Esta canção proto industrial e cerimoniosa que se estende por oito minutos lança as escadas à 'Joy Division'(oiçam 'I remember nothing' e comparem as duas) e é um longo lamento fúnebre com loops e sintetizadores a tenderem para a deformação. É daquelas que nos transporta para vasto deserto interior quando ouvida no escuro. Não façam isso.
Feromonizar por aí

Por estes dias aconteceu ouvir uma canção que desconhecia. Googlei para aqui e para acolá e vim a descobrir que a música era «Psicologia» dos Feromona. Daí ao myspace foi um saltinho, e de lá à página de download gratuito do álbum «Uma vida a direito» foi um passo. Ouvi e gostei bastante, sendo que o álbum resiste bem a várias audições. Aqui e ali sentem-se as influências(dos The National pelo menos), mas hey! Isso não é mau e a malta está a começar. As letras são boas e a música ouve-se muito bem. Podia teorizar mas oiçam por vocês mesmos, o download é imperdível na minha opinião, e já agora façam como eu e vão lá colocar qualquer coisita no NIB deste pessoal que foi generoso e nos ofereceu o seu trabalho.
Download do álbum
Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
Talento
Work

Estive há cerca de uma semana numa daquelas sessões na Igreja Baptista de S.Domingos de Benfica, que desta vez versava sobre «A Música e o Céu». Os interlocutores foram Miguel Sousa(Guel, para os mais familiares com os artistas da Flor Caveira) e João Lisboa, reputado Jornalista musical. Foi muito interessante e recomendo a toda a gente, mas não é o que me traz cá hoje.
João Lisboa foi o tradutor e actualizador do livro «SUPERSTARS - Andy Warhol e os Velvet Underground», verdadeiro dicionário enciclopédico sobre os Velvet e Warhol . O meu exemplar foi comprado em 20/11/92 e está aqui comigo a partilhar este momento.
Esse livro introduziu-me à obra magistral de Lou Reed e John Cale, «Songs for Drella». Com o livro primeiro apaixonei-me pelo tema e pelas palavras deste requiem para Warhol , que teve a sua première numa igreja(St. Ann em NYC). Só depois, e com esforço, veio a apreciação musical daqueles arranjos para guitarra e piano ou para guitarra e viola d'arco.
WORK é a quarta faixa deste álbum e é a música mais importante da minha vida. Uma lição de ética de trabalho, que me vem sempre à memória quando pareço querer fraquejar no meu empenho. Vale a pena espreitarmos o início:
Andy was a Catholic
the ethic ran through his bones
He lived alone with his mother
collecting gossip and toys
Every Sunday when he went to Church
He'd kneel in his pew and say
"It's work, all that matters is work."
Trabalho, tudo o que importa é o trabalho. São quatro minutos que percorrem toda a relação de trabalho entre Warhol e Reed, e na letra fica bem espelhada a ética de Andy Warhol (católico, que me perdoe Max Weber), uma ética honrada pelo exemplo de quem pintou porcos e desenhou séries infindáveis de sapatos para subir a pulso na grande cidade.
Reed guardou muitas amarguras de Warhol , como ouvimos na tocante «Hello is me», mas nunca esqueceu o principal:
Andy said a lot of things
I stored them all away in my head
Sometimes when I can't decide what I should do
I think what would Andy have said
He'd probably say you think too much
That's 'cause there's work that
you don't want to do
It's work, the most important thing is work
Depois da sua longa descida aos infernos, Lou Reed foi capaz de renascer das cinzas com «New York», um hino ao minimalismo e à palavra como cidadã de pleno direito do universo da música popular. Este é o rocker que ambicionou nada menos do que ser o Dostoievsky da escrita de canções. Lou, para ser Dostoievsky, não sei se só trabalho chega...mas ajuda.
Hello, i'm Johnny Cash

Num dos últimos post deste blog o Paulo César acaba a dizer que o Zooropa até era jeitoso, quanto mais não fosse por lhe ter dado a conhecer o Johnny Cash(Na música The Wanderer a voz é a do Johnny Cash).
Ora, a mim foi ele (PC) que me deu a conhecer o Last Great American.
Inevitávelmente esse primeiro contacto com o Cash foi através do brutal vídeo do Hurt (Música presente no American IV, original dos Nin Inch Nails). Como qualquer outro fiquei abismado com aquele vídeo e com aquela música. Aquele velhote a cantar aquela música daquela maneira arrepiou-me. Fui, obviamente, procurar mais. Inicialmente foram os American III e IV que me prenderam (talvez por serem os únicos em CD lá por casa). Músicas como o Solitary Man, One(u2), The mercy seat(Nick Cave)ou Country Trash passaram logo ao topo da minha "playlist". O American IV é, todo ele, muito bom. São 15 músicas todas elas com um toque que as torna únicas e inconfundiveis. Começamos a audição com The Man Comes Around e logo somos apanhados naquela teia do trovador que não mais nos larga, mesmo em músicas que já conheciamos e gostávamos com a supracitada Hurt, a também incontornável versão da Personal Jesus ou ainda a Bridge Over Troubled Water.
Mais tarde e já com a ajuda das novas tecnologias (leia-se downloads ilegais) ouvi não só os restantes American(á excepção de American V que só mais tarde saiu,para o qual fica aqui uma palavra para a God's gonna cut you down) mas também muito daquilo que havia para trás. Aí descobri o verdadeiro Johnny Cash. Músicalmente prefiro a fase American, mas intriga-me e fascina-me o Homem dos concertos nas prisões e das prisões por posse de droga, o homem do Walk the Line e do A boy Named Sue, o contador de histórias nato, o Man in Black. Esse lado negro das coisas sempre me atraiu muito (talvez também por influência do PC).
Para finalizar fica aqui uma pequena história que guardo comigo, e que recordo com alguma emoção, do dia em que o meu irmão chegou a casa e me disse, "pá, morreu o velhinho"..O velhinho era o johnny cash e nesse final de tarde algures em 2003 lembro-me de ter ficado com uma lágrima no canto do olho, e de ter ido ouvir a Hurt vezes sem conta. Tinha morrido o Last Great American.
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Berlim faz bem.
Só pode. Acho que até eu se for para Berlim sou capaz de sair de lá com um álbum daqueles que ficam para a história. Ok, ok ,talvez tenha de levar o Brian Eno. E comprar talento.
Assim devem ter pensado os U2. Dispostos a “destruir o Joshua Tree à machadada” nas palavras dos próprios, encontraram em Berlim, à altura a respirar o ar de uma cidade finalmente livre, invadida por artistas de todo o mundo e um vulcão multi-cultural em erupção o ambiente perfeito para desenfastiar do sucesso atingido com Joshua, esticado ao limite com Rattle and Hum. Eu gostei do Joshua Tree, confesso que foi o 1º CD que comprei , dada a volta ao meu Pai para comprar um aparelho de CD’s. Até o meu irmão me dizer que era “a coisa mais comercial que Deus ao mundo botou”. Bem, ele já ouvia Velvet Underground…
Acho que conseguiram, e deram ao mundo o melhor álbum dos U2 e um dos melhores álbuns da década de 90. Denso, guitarras nervosas, ambientes psicadélicos quase hipnóticos, como que uma espiral sem fim. Brian Eno sabe o que faz, e ele gosta de fazer bem.
A banda soltou os demónios todos cá para fora, fez um pacto com a cidade e juntos deram um passo em frente. Os U2 deixaram definitivamente a América para trás, ou quase, não fosse a presença espiritual de Lou Reed – Acrobat é para ele , “In dreams begin responsibilities”. Mas Lou Reed, Mr. New York, para além de querer ser preto também gostaria de ser ein berliner …
Dali ainda saiu Zooropa, diferente mas também ele um grande álbum. Quanto mais não fosse porque me deu a conhecer Johnny Cash.
Domingo, 5 de Abril de 2009
A vida depois de Deus
É assim o início do fim de «A vida depois de Deus» de Douglas Coupland:
Ora aqui está o meu segredo:
Digo-vos com o coração nas mãos que duvido que alguma vez volte a conseguir, por isso oxalá estejam num quarto sossegado quando ouvirem estas palavras. O meu segredo é que preciso de Deus - estou doente e já não me safo sozinho. Preciso que Deus me ajude, porque pareço já não ser capaz de dar; que me ajude a ser bom, porque pareço já não ser capaz de bondade; que me ajude a amar, porque pareço já não ser capaz de amar.
Quem profere estas palavras é um homem amargurado, que à semelhança do herói de 'In to the wild'(grande banda sonora do Vedder) se embrenha nas florestas da British Columbia para se procurar:
...foram as recordações dessas paisagens que me levaram a escolher retirar-me mais para dentro de mim e meter-me no território selvagem.
O que vai no imaginário deste homem? A paranóia do nuclear, o desencanto com a pós-modernidade, em que tudo está explicado e todas as emoções mercantilizadas; o incessante jorrar de comerciais a induzirem-no a fazer isto e aquilo; o vazio de espiritualidade, preso por ganchos a um materialismo excessivo no qual os templos se transferem para os centros comerciais.
Comprei este livro em 95 - ainda tem um bilhete de combóio dessa data a marcar as páginas. Nessa altura vivíamos em Portugal uma certa onda de prosperidade embalada por rios de subsídios da União Europeia. Tudo parecia brilhante à nossa frente, toda a gente começava a viver um pouco melhor, e já se começava a sentir um pouco aquela atmosfera de invencibilidade face ao destino, e a frequência dos cultos começava a ressentir-se fortemente disso. O «temor a Deus» como a minha avó o proferia começava a ficar um pouco demodé.
Eu sou talvez da segunda geração de pessoas lá na minha zona rural que se filiou numa cultura pop-rock, tradicionalmente irreverente e avessa à religião(com excepções). A primeira geração é uma geração completamente perdida: muitos mortos com as drogas, outros que são farrapos humanos. Pagaram caro a sua ingenuidade face a essa cultura emergente, entrando nela desprotegidos. A geração seguinte, a minha, cresceu já com alguma informação, e com os exemplos da primeira geração. Esta geração benificiou do melhoramento das condições socio-económicas patrocinado pela generosidade nossos parceiros comunitários, e foi práticamente a primeira que pôde ir para a universidade sem ter que obedecer à máxima «se queres estudar vai para o seminário».
O acesso à literatura e à informação mais científica, ainda pré-web, levou-nos a muitos a desconfiar enormemente das ladaínhas que domingo após domingo nos eram impingidas na missa. Certas contradições entre a prédica e a prática e uma certa atitude monolítica e impositiva da igreja, sem direito a porquês, também ajudaram a esse sentimento de desconfiança. O que se passou é que muitos(eu por volta dos 15 anos) abandonaram a igreja, não por ausência de fé, mas por ausência de identificação com aquela forma de praticar a fé.
Voltamos ao livro aproveitando o embalo do parágrafo anterior. Conseguimos viver sem Deus? Como é que preenchemos esse vazio? Eu olho à minha volta e vejo coisas engraçadas. Há os que só se lembram de Deus quando estão enrascados: aqui me penitencio porque é também um pouco o meu caso; outros vivem num frenesim materialista e na esperança que tudo se resolve com o seguro de saúde certo(o mais caro, claro); outros ainda ostentam orgulhosamente a sua anti-religiosidade e andam a ler sucedâneos pobres da bíblia como toda a obra do Paulo Coelho e os livros de auto-ajuda(salvé ò Segredo).
Creio que a minha geração é de transição, e que começa e emergir uma nova vaga de pessoas que não se envergonha de ostentar a sua fé, o que é verdadeiramente saudável e livre. Mais do que isso, começa-se um pouco a vencer o tabu de se discutir religião, fé e espiritualidade em maior profundidade. Seja pelo ponto de vista da Bíblia, do Alcorão ou outro qualquer, penso ser essencial que se fale da espiritualidade, que é uma dimensão completamente indissociável da essência do ser humano, porque a mim me parece que depois de Deus virá....Deus, ou o que lhe quisermos chamar.
No que me toca, até gosto da Bíblia - ainda me lembro de ganhar um 'Novo Testamento' pequenino, que ainda hoje guardo, por dominar as parábolas na catequese. Os meus filhos também adoram as histórias da sua 'Bíblia para crianças'; não há tabus quanto a isso. A sua interpretação à luz da fé é um outro assunto que não cabe neste já longo post.
Há no entanto outros olhares sobre o problema de Deus, que também são dignos de atenção e discussão. Temos por exemplo a visão de Sartre, que diz só uma vez ter sentido Deus, sem que tal tenha sido uma experiência deleitosa por aí além:
Uma só vez experimentei a sensação de que Ele existia. Eu brincara com fósforos e queimara um pequeno tapete; estava a dissimular o meu crime, quando de súbito Deus me viu; senti seu olhar dentro de minha cabeça e sobre as minhas mãos; eu rodopiava pela casa de banho, horrivelmente visível, um alvo vivo. (As Palavras, p. 75)
Vejamos também o que Sartre diz sobre o crente:
O crente, neste caso, está condenado ao desespero, pois só encontra o fundamento da sua existência na sua relação com o Eterno. Contudo, a fé em Deus não prejudica o homem, pois corresponde à possível construção da sua vida enquanto parte da humanidade.
Sartre continua ainda driblando em direcção à baliza:
...a existência de Deus e a do homem livre são, na realidade, desprovidas de qualquer relação concreta, isto é, para que o homem viva, é necessário que Deus desapareça.
A pergunta que eu deixo é:
Terá o Homem dimensão para suportar a angústia da ausência de Deus?
Parece-me que o desabafo do nosso protagonista em «A vida depois de Deus» já nos vai dizendo algo no sentido da resposta.





