Domingo, 31 de Maio de 2009

sadcore




Numa entrevista, Mark Eitzel diz: «a ideia de pessoas inteligentes a escrever canções para as massas acabou». «As massas não querem realmente ouvi-las».

Estaria ele a pensar no caixote de vómito que se tornou a MTV ou no Rock in Rio? O Rock'n'Roll, a música subversiva dos anos 50 e 60, e 70 se considerarmos o Punk, foi assimilado de vez, e agora temos punks betinhos. Mesmo muitas bandas novas não conseguem fugir à armadilha da emulação e reciclagem de modas.

Qual é a música subversiva dos dias que correm? Mesmo Antony com o seu desfilar de travestis foi aplaudido de pé em Braga, a cidade mais beata que possa imaginar. Talvez agora seja tudo estilo, e tudo seja inócuo e controlado, porque as massas já não ouvem as músicas, deixam-nas passar e dizem «cool», venha a próxima.

O Rock tem reinvenção possível, ou há que passar adiante?

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Sábado, 30 de Maio de 2009

Por amor da Santa


Não invocar o Santo nome de Deus em vão!

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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Covers e mais covers




Se há coisa que eu gosto é de covers. Acho muito interessante as múltiplas vidas que uma música pode ter às mãos de diferentes artistas. A prova de que é bem possível ser original com as coisas dos outros.

Como já foi aqui escrito e comentado, os cotas do Fase Berlinense começaram a despertar para a música com os R.E.M. E foi também com os discos desses camaradas que comecei descobrir esse especial prazer que é desfolhar o inlet de um disco à procura daquele pormenor que faz toda a diferença e que desperta em nós aquele gajo erudito que pensa que sabe o que mais ninguem sabe. E quando a descrição dos autores das músicas não correspondia ao clássico Berry, Mills, Buck, Stipe, toca a pesquisar o autor da obra. Foi vício que ficou e se foi perdendo com o advento da internet. Infelizmente, os downloads não trazem livrinho…

Dos R.E.M., desde logo as primeiras versões dos Velvet Underground, Femme Fatale e There She Goes Again, passando por Love is All Around dos The Troggs, no Unplugged, acabando na soberba cover de First We Take Manhattan no álbum de homenagem ao mestre Leonard Cohen, I’m Your Fan.

Há milhares delas, mas das que conheço, e para não maçar muito, destaco Jokerman de Bob Dylan por Caetano Veloso, New Dawn Fades dos Joy Division por Jolanta Kossakowska (do álbum tributo Warszawa Tribute to Joy Division por artistas polacos), Shock Me dos Kiss pelos Red House Painters e a improvável Cravo e Canela do Milton Nascimento, às mãos dos Tortoise com Bonnie ‘Prince’ Billy,do excelente álbum de versões The Brave and The Bold, de onde se destaca ainda uma versão de Daniel do Elton John.

Obviamente também todas as que fez Jeff Buckley. Para quem só conhece Hallellujah e as outras do Grace que se dê ao trabalho de ouvir o Live at Sin-é.

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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

In one single instant, Bob Dylan plugged in an entire generation


"In one single instant, Bob Dylan plugged in an entire generation"
Ví esta frase num vídeo sobre o concerto que Bob Dylan deu no Newport Folk Festival, em 1965, e acho que nenhuma outra frase define tão bem o momento em que Dylan renega completamente tudo o que até então tinha feito e liga as guitarras á electricidade.
Num festival em que era esperado o Dylan Sing\Songwriter o senhor chega lá e diz: É nesta onda que eu estou agora! E simplesmente chega e toca 16 músicas ligado á corrente. (Anfetaminas incluídas)
Marcante, posterior mas marcante, foi também a viagem de Dylan a Inglaterra em 1966. A ERA era outra e a comunicação não era o que é hoje, e em Newcastle, numa plateia essencialmente desconhecedora da aventura dylaniana em Newport, Dylan entra em palco com a sua banda e entoa os primeiros acordes de "Like a Rolling Stone". Automaticamente começam-se a ouvir os primeiros assobios. Sintomático de um público que, pensavam eles, estavam ali para ouvir o Bob Dylan e não uma qualquer sequela dos Beatles ou dos ainda pequenos Stones(!!!!!).
Para não me alongar muito vou dizer-vos que é deste Dylan que eu gosto! Do anti-herói, do tão loucamente apaixonado por sí mesmo e pelo que simplesmente queria fazer. Do Dylan que é o que quer ser.
Sou, obviamente, daqueles que veneram e fazem de Dylan o herói que ele não quer ser, mas essa visão é estritamente pessoal.
Aconselho, a quem quiser aprofundar, o óbvio "no direction home" do Scorsese, que vos contará esta história muito melhor que eu, que mais não sou que um apaixonado pela música e poesia do Dylan.
Agora que descobri como se colocam vídeos nos Post, fica aqui o registo em Newcastle, 1966.
video

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Apaixonado por uma linda autoestrada


O que acontece quando um David Byrne meio lunático se junta a Johnny Marr, o eterno guitarrista e compositor dos Smiths? Nada (a não ser flores).

Nothing (but flowers) é mais um daqueles temas que me levam a crer que Johnny Marr imortaliza tudo onde mete a palheta. É um tema do último álbum dos Talking Heads, e juro que até há cinco minutos atrás pensava que era uma singela inspiração africana, mas Marr desdiz essa teoria na revista Uncut de Fevereiro de 2008:

«When I got there they put down some bass and drum tracks. '(Nothing But) Flowers' sounded almost like a Reggae dub track. I wasn't trying to play in an African style - although some people pointed out that I sometimes sound like that anyway! I knew all about King Sunny Ade (performer of Nigerian juju music) and I love Fela Kuti (Nigerian multi-instrumentalist) but really I just played melodies that sounded good in a high range. The intro to 'Flowers' was me playing without knowing the tape machine was on - that's how little attention I paid to any kind of remit! I built that track from the ground up. I was impressed with what David (Byrne) did on it. He worked super quickly on it.»
Já não bastavam os Smiths, os The The, os Electronic e recentemente os Modest Mouse, o pequeno Johnny tinha ainda de nos oferecer esta pérola de alegria despretensiosa pós-apocalíptica, engrandecendo ainda mais a imprescindível
obra dos Talking Heads. Bastaria «Remain in light» para encher as medidas pop de qualquer um, mas há muito mais em Byrne e Ca.

Não poderia deixar este breve apontamento sobre os Heads sem mencionar o magnífico filme que documenta a banda ao vivo: «Stop making sense», um luxo, é o que se pode dizer.

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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Fim de tarde solarengo em Paredes de Coura


Um fim de tarde em Agosto de 2005 e ali estava uma das mais belas surpresas musicais da minha vida. Num dia solarengo lá saímos, eu o meu irmão Paulo, da bela freguesia de Sande S. Martinho em direcção a Paredes de Coura.

O dia prometia. Arcade Fire, Queens of the Stone Age e os grandiosos Pixies estavam á nossa espera. A banda sonora do caminho, se não estou aqui a trocar nada, foi o unplugged do Gilberto Gil.Os Pixies, de quem um dia eu hei-de ter coragem de escrever um Post, eram o grande aperitivo. Os Queens of the Stone Age eram algo que eu já ouvia, mas foge um bocado ás minhas preferências. Um excelente concerto, cheio de energia e muito rock. Mas antes estiveram em palco aqueles que deram o melhor concerto que eu já vi na minha vida . Já tinha ouvido uma ou duas músicas dos Arcade Fire, cortesia da "sempre á frente" Rádio Universitária do Minho, e ia com alguma expectativa para ver o concerto.

Estávamos pouco mais de 100 pessoas á espera para ver o concerto, nesse tal fim de tarde solarengo. Era só o começo. Aquela orgia musical estava a começar, e mal se ouviram os primeiros temas o público no recinto foi ficando, estupefacto, aprisionado aquele cigano ambiente num palco em que os instrumentos passavam de mão em mão, em que se fazia percussão com capacetes (metidos na cabeça!!), enfim, acho que orgia musical é o melhor termo.

Fiquei parvo da minha vida! Já tinha visto muitos concertos, e vi muitos depois desse, mas nenhum tão desconcertante. Ninguém conseguiu parar, durante aquela hora e tal de concerto. Músicas como "Neighborhood #3(Power Out)","Wake Up" e a inevitável "Rebellion (Lies)" levaram á loucura o já muito público presente na plateia.
Para acabar com o festival, um final apoteótico onde o Win Butler se atira para o público de guitarra em punho, levado aos ombros por alguns metros (talvez até onde o cabo da guitarra deixou).

Foi realmente muito bom, essencialmente pela surpresa.
Já me aconteceu uma situação parecida, embora, sem prejuízo algum para os intervenientes, devamos salvaguardar algumas distâncias, na primeira vez que vi o Tiago Guillul ao vivo, no saudoso Alla Scala, em Braga.


Fica aqui um vídeo para quem não teve a sorte de lá ter estado ter a noção do que eu falo.
video

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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Berlim, cidade mítica do Rock III - Berlin


Vivi no verão do ano passado um dilema musical interessante, o concerto na mesma noite de Lou Reed e Leonard Cohen em Lisboa. O facto de um dos meus irmãos estar cá para ver o Cohen, e de esse espectáculo ser decididamente mais wife-friendly, acabou por exercer muita influência na minha escolha por Cohen, acrescendo o facto de eu ter já visto Lou Reed em Coimbra aqui há uns anos, num bom concerto(contra os meus medos) aliás.

Lou Reed trazia a encenação de Berlin, o seu álbum conceptual maldito sobre um casal de um junkie com uma prostituta, e toda a sua espiral descendente de violência doméstica, abuso de drogas e depressão até ao suicídio, envolvido num ambiente de ópera rock dramático e grandiloquente. Reed tinha à altura do lançamento altas expectativas para este álbum, mas por estar demasiado à frente do seu tempo, Berlin foi rejeitado com veemência e atirado para o caixote dos falhanços comerciais.

Berlin não era o álbum esperado por aqueles que tornaram o disco anterior, Transformer, um grande sucesso muito à custa de «Walk on the Wild Side», uma música povoada de travestis da Factory de Warhol e de freaks, mas no entanto irresistível no arranjo de contrabaixo de Mick Ronson. Reed terá dito aos fãs da altura que o ábum iria «destruí-los completamente. Este vai mostrar-lhes que não ando a brincar». E garanto que não é fácil ultrapassar «The Kids» sem um nó na garganta.

Musicalmente, Berlin recupera músicas já no baú de Lou Reed há muito tempo. A própria faixa título aparece no primeiro e largamente ignorado álbum de estreia a solo, «Lou Reed», com outra letra. «Caroline Says II» era já minha velha conhecida do álbum «VU», que contém músicas inéditas dos Velvet Underground, saído em 85; esta música chamava-se então «Stephanie Says» e tinha um belíssimo acompanhamento de viola d'arco de John Cale. Há evidências de «Man of good fortune» a ser tocada pelos Velvet na Factory, e «Sad Song» e «Oh Jim» estão num registo que contém toda a sessão de gravação do último álbum dos Velvet, «Loaded», que eu encontrei por sorte num centro comercial. Berlin vem trazer a estas canções arranjos grandiosos e novas letras com as quais Reed construiu uma unidade conceptual.

Não é a primeira vez que falo da habilidade cínica de Lou Reed para juntar melodias pop com letras dilacerantes ou, como ouvimos logo na primeira canção, uma descrição de uma festa a um piano melancólico que denuncia que algo vai acabar mal. Tudo isto já Reed fazia nos Velvet, mas em Berlin Lou Reed quer ser escritor, e usar Berlim, cidade dividida onde nunca tinha ido, como metáfora para o por vezes insuperável fosso entre seres humanos.

O insucesso de Berlin magoou Lou Reed profundamente, e foram necessários 34 anos para que ele finalmente acedesse a voltar a enfrenta-lo. Por tudo isto me custou não ir ao Campo Pequeno.

Mas a minha história não acaba como a Caroline de Berlin, com os pulsos cortados. A encenação actual de Berlin passou nos cinemas, e quando aterrou no «Monumental» não deixei escapar. Eu desconfio sempre de Lou Reed, pois quando lhe dá para estragar é de fugir, mas a fidelidade e o cuidado que ele colocou neste espectáculo mostram o respeito e o amor que ele ainda mantém a este seu filho pródigo. A realização de Julian Schnabel tem bom gosto e não interfere muito na imagética da própria música, soltando aqui e ali indicadores difusos para o espírio negro deste álbum, o resto é o concerto e a música, que encontrou neste tempo o seu tempo. E tenho uma cópia em DVD, para os dias felizes.

PS: E como bónus temos Antony Hagerty nos coros e a cantar «Candy Says» como só ele sabe.

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Sábado, 23 de Maio de 2009

Aviso

Ás novas bandas :

no futuro, e não tarda muito, o "cool" vai ser não ter myspace.

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Artistas noveaux




Li aqui um comentário ao bem vindo surgimento a solo de Filipe Sousa e Jónatas Pires, fora do colectivo «Os Pontos Negros». O autor do blog faz um paralelo entre vários artistas, juntando aos dois já mencionados Samuel Úria e Manuel Fúria, e faz uma comparação destes com B Fachada, que segundo o autor estará a ser injustamente incensado como o artista mais interessante desta nova fornada de artistas.

Há na minha opinião objectivos e motivações diferentes nos artistas referidos aqui. Pelo que ouvi do cd do Filipe Sousa e vi na sua actuação, quer-me parecer que a abordagem deste pende mais para o intimismo, para uma certa busca e expressão de espiritualidade, o que dá muita força às canções, e o coloca num plano diferente do da sua banda. No caso do Jónatas Pires, pelo que oiço no myspace, parece-me uma confirmação da sua arte para criar doces momentos pop, mais no seguimento da linha de 'Os Pontos Negros'. Do Samuel Úria estou à espera do álbum desde que tive o prazer de o ver em V.N.Famalicão, e espero que seja interessante e bom. Do Manuel Fúria pouco sei dizer porque o que vi ao vivo não me cativou, e do novo disco só conheço o que está no myspace, e não acrescenta muito ao que vi ao vivo.

O B Fachada é outra história, é mais transgressor e explorador, mais arrojado, por isso mais exposto ao falhanço rotundo num ou noutro ponto, o que na minha opinião é largamente compensado com canções verdadeiramente desafiadoras e que não se deixam consumir como mero rebuçadinho pop. Há um caminho no sentido do apuramento do que funciona e do que não funciona, mas se bem que Fachada nunca arrastará multidões - porque a sua música não é muito óbvia e porque as suas letras conspurcam a pureza de algumas almas, ele será bem sucedido enquanto mantiver a sua urgência e não se deixar formatar.

Não lhe deixes por-te mão...

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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Será ?

É. É o Iggy Pop. E depois ?

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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

O ritmo dos santinhos(agora com mais santinhos)




Anos 80, paleolítico da internet. Uma tasca em Guimarães, idade das trevas da informação. A clientela habitual: o Minguinhos, o Caló, o Giggio e outros do mesmo naipe; aqui e ali a conversa resvalava para a música. Na portuguesa destacavam-se os Xutos com «a Casinha» e «Maria», na estrangeira os «Daire Estraites», o que punha a guitarra a falar e ninguém sabia o nome(Peter Frampton), os já longínquos mas ainda na memória «Supertramp» com o seu concerto em Paris, e esse duo fantástico que tinha metido aí um milhão de pessoas no Central Park, Simon & Garfunkel. Do Simon ainda se ouvia falar pelos idos de 86 após o lançamento de «Graceland», mas Garfunkel era já pasto para o mito rural. Todos me afiançavam que o desgraçado havia perecido das mais diversas maleitas e acidentes, embora eu ainda o julgue de saúde em 2009.

Mas a coisa do Simon foi ficando, no início pelo folclore do milhão de alminhas, depois pela audição até à náusea do célebre concerto, posteriormente por estar a jeito para aprender umas coisas de viola. Não é de todo menorizável a obra no domínio do folk-rock de Simon até 80, de forma nenhuma nego saber quase de cor grande parte da obra inicial do homem, mas é «Graceland», que vem continuar e ampliar a veia world-music já ensaiada em «El condor pasa» que inscreve Paul Simon nos grandes músicos do nosso tempo. Rodeado dos melhores músicos africanos, com arraiais assentes na África do Sul, Simon grava um álbum que faz ver como é grande a afinidade entre a música africana e a música(negra) americana.

Quatro anos mais tarde, em 90 Simon regressa com «The Rythm of the Saints», desta vez inspirado nos ritmos do Brasil(digo isto porque na verdade em boa parte das músicas não se sente o Brasil a não ser nas percussões). Este é para mim o melhor disco de Paul Simon, que eu oiço, re-oiço, enjoo e volto a reencontrar, sempre nascente de novos e prazeirosos pormenores.

O disco abre com «Obvious Child», um samba melancólico sobre como o fulgor e o idealismo se vão acinzentando com as contas para pagar, continua com a sinfonia de percussões que é «Can't Run but», que em mim evoca uma travessia sufocante da amazónia, mas que afinal é sobre Chernobyl, e segue directamente para os Camarões com «The Coast» - onde nos devemos deleitar demoradamente com todo o trabalho musical, a começar pela guitarra de Vincent N'Guini. «Further to Fly» tem o Beatle Ringo Starr na bateria, e é uma música lindíssima, quase recitada, mais uma vez com uma letra plena de melancolia, e uma riqueza musical explêndida; «Born at the right time» volta a África, mas é o épico «The Cool, Cool River» que eu elejo neste disco - a letra debruça-se sobre um planeta em crescente agonia, e tem uma evolução que culmina num ataque da secção de metais de arrepiar os cabelos, sempre com um extremo bom gosto nas texturas e ambientes musicais.

Este álbum é indispensável, uma obra maior.

Ps: Tal como o Paulo César comentou, a minha memória sofreu de grave falha ao ignorar o ídolo dos ídolos daqueles míticos anos 80 da tasca: o glorioso Bryan Adams. Também tem razão da minha inequidade em deixar alguns personagens importantes e queridos de fora, tal como o Fina e o Black que se infiltraram nos finais dos anos 70 no backstage do concerto dos Barclays James Harvest sem saberem uma palavra de inglês(a linguagem da sede felizmente é universal), e do iú, o maior assassino de peixes com granadas roubadas da tropa no ribeiro local. Eles ainda virão cá de novo.

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O meu primeiro beijo


Quem nunca dançou, algures entre 1983 e 2009, Blister In The Sun? Quem nunca sussurrou:

When Im out walking I strut my stuff yeah Im so strung out
Im high as a kite I just might stop to check you out
Let me go on like I blister in the sun
Let me go on big hands I know your the one
Body and beats I stain my sheets I dont even know why
My girlfriend shes at the end she is starting to cry
Let me go on like I blister in the sun
Let me go on big hands I know your the one...

Toda a gente!
Foi esse o meu primeiro encontro com os Violent Femmes e com seu álbum homónimo.
Já vomito, quase literalmente, a Blister In The Sun, e a música continua a ser muito boa, mas este disco enche-me as medidas. Objecto quase inigualável, pela brilhante fusão de tudo o que podemos imaginar no âmbito dos estilos musicais, desde o quase Punk de Kiss Off aos quase românticos Please Do Not Go e Good Feeling, passando pelo rock de Prove My Love e pelo country\folk em quase todas as músicas do disco(bem, talvez aqui e ali os Eels consigam fazer parecido, quiçá melhor), este disco é, sem qualquer sentimentalismo um dos melhores discos da década de 80. As guitarras acústicas afiadas quase grunge (em 1983?!?!) de Promise, por exemplo, mostram-nos quão grande é este álbum. Um bom ouvinte de música, embora mais desatento um bocadinho, diria que este disco nasce no coração dos 90's, algures entre a euforia Grunge dos Mudhoney e a BritPop dos Oasis e Blur(Violent Femmes, o disco, é disco de platina em 1992!), mas na realidade ele nasce nos 80's, no meio do pós-punk\new wave, algures entre o cinzento dos Joy Division (ou preto mesmo preto) e os penteados e da maquilhagem dos Cure, embora não seja de negligenciar a "aparição" dos REM, e eu até podia dar aqui uma perninha, mas deixo isso para a classe alta desta irmandade, muito mais habilitada para falar sobre esses senhores de Athens e quiçá, estabelecer aqui algumas ligações.
Chamem-me maluco se for o caso, mas este disco tem um toque que outro nome não pode ter a não ser genial (e já agora visionário).
Vou chamar a este Post "O meu primeiro beijo", mas talvez o nome mais correcto fosse "o dia em que fui atropelado por este disco". Enfim, é só porque me apetece.

O meu primeiro beijoSocialTwist Tell-a-Friend

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Faith : no more!


Serve o presente post para avisar todos os interessados, e os não interessados também, que no próximo dia 8 de Agosto é favor não deixar as pitas e os men's com cabelo á fodasssss ir até á Zambujeira do Mar, porque é dia de rock pa gajos de barba rija. Depois de 11 anos de interregno (o último concerto foi em Lisboa no dia 7 de Abril de 1998) os Faith No More regressam aos palcos para uma digressão europeia que passará pelo Festival Sudoeste.
Provavelmente não vou ao concerto, com muita pena minha, mas aconselho vivamente.
Bem, menos ás pitas e aos cabelinhos á fo*********.

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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Paredes Radio Coura Head





Gostava daquelas sextas feiras. Quase invariavelmente perfilava-se o cenário de que não era possível chegar com todas as mercadorias de Viana do Castelo até todo o Alto Minho com os carros disponíveis; seria necessário dar um apoio com o carro da gerência aos lugares mais recônditos: Monção, Melgaço, Castro Laboreiro e Paredes de Coura.

Com o Corsa carregado de produtos de limpeza lá ia eu em missão. O percurso escolhido era a maior parte das vezes seguir de Viana até Ponte de Lima, e de Ponte de Lima subir(e descer) até Paredes de Coura. Quem resistir à auto-estrada será largamente recompensado nas visões de beleza do Alto Minho no seu estado mais puro.

A banda sonora fazia parte do ritual, e por muito tempo foi «KID A», o quarto álbum dos Radiohead que me acompanhou na viagem. Quando o comprei estranhei a derivação electrónica tão profunda, mas o tempo e os «passeios» a Paredes de Coura fizeram-no adquirir um significado único para mim.

À medida que nos vamos afastando de Ponte de Lima pelo lado de Arcozelo, vamos adquirindo altitude, e a pouco e pouco vão-se desenhando pela nossa esquerda montes, que vão progressivamente regredindo ao som de «Everything in its right place». O silêncio exterior e o desamparo da paisagem vão-se misturando na minha cabeça numa espécie de osmose com o trabalho gráfico do álbum, ele próprio composto de paisagens frias e fantasmagóricas, nesse ponto contrastantes com todo o verde silencioso que se vai desenhando enquanto serpenteio monte acima.

Quando chega o sino da manhã já estou no topo, e suavemente vou deslizando até à vila, incrustada entre montes, com o seu ambiente pacífico e acolhedor.

«KID A» é um dos meus álbuns preferidos, e não consigo ouvi-lo sem sentir as suas texturas e atmosferas, que fui conquistando audição a audição, com uma dificuldade teimosa até ceder completamente a que aqueles sons me habitassem por fim, indistintos das imagens do vale, das casas raras ao fundo e da sombra das nuvens nos montes.

Tenho saudades de passear até Paredes de Coura. Quando for levo o «Kid A».

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Domingo, 17 de Maio de 2009

As minhas Variações


É saloio e cosmopolita, ave rara no meio do marasmo, canta a palavra com sentimento, as outras levou-as o vento.
Soube dar e receber, sempre sem desconversar, a sua visão transcende-me, ele foi o que tinha de ser. Foi pós-punk e folclore, foi farol num mar de gente, foi um marco na minha, o gajo estava muito á frente.
Vivia a 100 á hora, vivia as ilusões, foi feliz com certeza, conhecia as limitações.
Cantou-me materno fado, gritou-me materno chorar, despertou as minhas lágrimas,foi um gajo singular.
É abusado e lamechas, desde já vos peço perdão, mas este gajo está vivo, dentro do meu coração.

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Lipe




A correria e o severo atraso para um jantar de aniversário valeram a pena. Cheguei a meio da primeira música da apresentação do trabalho de Lipe, de «Os Pontos Negros», na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica. Encontrei uma sala cheia numa disposição acolhedora e semi obscurecida, iluminada por um ou dois abat-jours, o ideal para a música acústica e intimista interpretada por Lipe.

Ao longo de algo mais que meia hora, Lipe enveredou pelas canções do mini-álbum, canções reflexivas e de viagem interior, insondáveis mas belas, evocando a contemplação solitária do divino ou do infinito.

A actuação contou a pontos com a ajuda de Jónatas, também de «Os Pontos Negros» na guitarra, e de Bruno Morgado na harmónica. Já conhecia o Bruno de dois outros eventos: a apresentação de Tiago Guillul no Maxime, na qual actuou também, e a apresentação de «Os Pontos Negros» na Fnac Chiado. O Bruno ainda não resistiu, já na escadaria, a dar um cheirinho de harmónica na música final (a segunda creio, de uma banda anterior da FlorCaveira «O Comboio Fantasma»), enquanto ao meu lado, David (o baterista de «Os Pontos Negros») cantava de fora todas as segundas vozes.

Se vinha de um dia estressado e movimentado, esta imersão no ambiente familiar e acolhedor na música de Lipe e do público presente na Igreja Baptista de S.Domingos de Benfica foi o contraponto oportuno de paz e espiritualidade.

Não procurem pop rock neste mini-álbum, é de essência que se trata aqui.

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Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Novo em 75




O NEU! foram formados por Klaus Dinger e Michael Rother no início dos anos 70, após estes dois elementos se terem separado dos Kraftwerk onde militavam até aí.

NEU! '75 é para meu alívio um grande álbum, eu que já pensava que o ano de 75 nada de jeito tinha trazido ao mundo, em termos de música claro.

Incluídos na vaga «krautrock» de artistas alemães expostos a bandas como os Velvet Underground, Frank Zappa e Jimi Hendrix, vaga na qual encontramos ainda outras bandas dignas de audição como os já mencionados Kraftwerk, Tangerine Dream ou Faust, os NEU! trazem neste álbum um som ora recheado de paisagens ambientais ora rock puro e duro, com a característica batida Motorik.

Este álbum é histórico porque «Heroes» de David Bowie tem esse nome devido à faixa «Hero» deste álbum. Os Neu!, juntamente com outras bandas de Krautrock tiveram grande influência na fase berlinense de Bowie, e Klaus Dinger foi mesmo convidado para a guitarra do primeiro álbum desta fase de Bowie «Low», convite que declinou.

NEU! '75 não envelheceu, está mais actual que nunca e é mais uma prova da lei de Lavoisier do Rock. Nada se perde, tudo se recicla.

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Terça-feira, 12 de Maio de 2009

GUIMARÃES


Capital Europeia da Cultura 2012. É oficial.
A provincia também merece. Obrigado.
P.S. - Tragam o David Bowie s.f.f.




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Senhor Rock&Roll


Mais um encontro imediato com o rock vindo dos lados de Coimbra.
Ontem foi a vez dos Wraygunn.
Foi rock&roll do príncipio ao fim. Sou um bocado crítico do último trabalho, mas em palco, aquilo soa mesmo muito bem. Paulo Furtado, o senhor rock&roll, despe-se em palco para uma hora de guitarras ora afiadas ora a fazer arrepiar a plateia com a aqueles acordes que se prolongam por longos segundos com a guitarra a tremer junto ao amplificador.

Muito bem secundado nas vozes pela Raquel Ralha e pela Selma Uamusse, Paulo Furtado traz para o palco a essência da música da América profunda, de New Orleans á Califórnia, num concerto em que é impossivel não sentir a tensão sexual, á lá Iggy Pop, no palco. E a banda faz por isso, e gosta. A actuação chega a roçar o obsceno. E ainda bem.

No final do concerto assaltei o backstage (outra vez) para dar duas de treta com aquele gajo que, ou muito me engano, ou vai ser mesmo muito grande(e não é em portugal).

Esperei uns minutinhos e lá apareceu o homem.
Comecei por perguntar-lhe como é voltar a Braga, e ao enterro da gata, agora com muito mais público do que da última vez (se bem me lembro,da última vez, estavamos 5 ou 6 na frente a ver o concerto, e o resto só olhou quando o Paulo Furtado desceu do palco para pedir ás meninas para lhe beijarem o sovaco).

Políticamente correcto(longe vão os tempos dos tédio boys) lá respondeu que o público estava muito bom (e estava mesmo), e que é bom tocar em Braga.
Seguiu-se uma pergunta sobre a recente viagem aos Estados Unidos:
"Foi uma experiência engraçada por perceber que na Europa as pessoas pensarem que eu tou a fazer coisas muito americanas, e nos EUA as pessoas pensarem que eu estou a fazer coisas muito europeias, mas no fundo eu estou a fazer coisas muito minhas, e fico contente por ver que as pessoas têm gostado. Foi para mim um sucesso, bem como para os outros projectos, os Clã, a Rita Redshoes, etc."

E o futuro?

"Neste momento vamos fazer mais alguns concertos dos Wraygunn durante o verão, mas depois vou-me dedicar ao novo disco do Tigerman, que sairá ou em Junho ou em Setembro, com um DVD de curtas metragens feitas por mim, gravado com 15 pessoas do mundo inteiro. È o projecto mais megalómano da minha vida, mas estou certo que....vai sair um dia"

Depois, revelando o meu lado mais parolo,lá fui eu tirar uma foto com a estrela (acho que é essa aí em cima) e preparar-me para o concerto dos UHF.
Hora e meia de músicas lamechas e 20 minutos que valeram a pena, com "cavalos de corrida", "Rua do Carmo" e "Menina Estás á Janela".

Não sei se me apetece ir ver os Da Weasel e os Orishas logo, mas se for, amanhã postarei sobre isso.

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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Ora Eça


Mais de cem anos passados, e há coisas que nunca mudam:

O que surpreende o leitor no jogo narrativo de Eça de Queirós é a justaposição entre o passado e o presente, mais precisamente entre os tempos gloriosos de Portugal e sua decadência. De um lado, temos a mediocridade da vida provinciana e de sua aristocracia decadente. De outro, o passado glorioso de Portugal, há muito perdido. Romance de formação e narrativa medieval fundem-se de tal maneira que são elevados à condição de "alegoria" do desejado destino português, que só poderia ser retomado por meio de uma reconciliação com o passado colonial da nação.

Os itálicos são meus.

Como se diria na minha terra - «Home Eça agora, se não é a fina flor do pedigree que ali vai!!!»

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Fim de Semana Longo


Antes de mais quero dizer que este post já tinha sido escrito, mas por arte do diabo isto apagou-se tudo e perdi tudo o que tinha escrito em 2 horas. Nem me apetecia escrever outra vez. Mas lá terá que ser. Tenho muito pa contar.

Este longo fim de semana começou no sábado no Bar N101 com um concerto dos D3O. Este pessoal de Coimbra deita rock por todo o lado. È impressionante a garra e poder deste trio. Músicas como Wanna hold you ou Couldnt care at all são hinos ao rock&roll, a vaguear algures entre os Ramones e os Clash, que espirram riffs agressivos pelas guitarras do mítico Tony Fortuna e do não menos brilhante Tó Rui.

Já aqui disse, e repito, que este pessoal de Coimbra, juntamente com alguns projectos da FlorCaveira, são o presente e o futuro do rock português.

Depois duma impressionante hora e meia de concerto entrou em palco a não menos louca Dj set de Ezequiel, o dirty one, e do inigualável Peter pan in neverland (ou seja, EU). Já sem t-shirt, rodou no gira discos (ou leitor de cd's) musica pa gajos de barba rija, dos Led Zepplin aos Blues Explosion. Diz quem lá esteve que durante hora e meia o caos esteve instalado no N101.

Nessa mesma noite ainda dei um salto ao recinto do Enterro da Gata. Quando cheguei os Deolinda estavam a acabar a sua prestação. Vou esperar por uma nova oportunidade para vos falar do muito engraçado fado pop destes Deolinda.

Depois começou a minha via sacra. Duas horas de concerto em piloto automático de Pedro Abrunhosa&Bandemónio. Do melhor registo da banda, Silêncio, nem um acorde. Só aquelas que toda a gente queria ouvir, ou seja, mais um daqueles concertos\greatest hits que só aos menos atentos agrada. Nada a declarar.

O meu fim de semana rock&roll continuou ontem, novamente no Gatódromo. Primeiro com uns Peixe:Avião muito esforçados, a jogar em casa, e com um público que mais parecia de encomenda, que cantou a altos berros quase todas as músicas. Peixe:Avião não é a minha praia, mas gostei do concerto de ontem. Um concerto mais rock, a disfarçar a clara veia "Radioheadiana".

No final do concerto,uma pequena conversa com Zé Figueiredo, baixista dos Peixe:Avião.

Começamos a conversa pelo concerto de ontem "é bom tocar em casa, é a nossa primeira vez no Enterro da Gata, e ficamos contentes. O público parece ter gostado, e claro que para nós, como para qualquer músico, é isso que importa." Depois duma rápida ascensão, no espaço de um ano os Peixe:Avião passaram das muito elogiadas salas de ensaio do estádio 1º de maio para a MTV e para concertos no pavilhão atlântico, o que se pode esperar no futuro? "já temos ideias, o essencial, isto é, música. Mas neste momento não há datas nem prazos. Estamos concentrados nos concertos". Zé figueiredo é também membro dos Smix Smox Smux, também eles de Braga, como muitos outros projectos interessantes que nos últimos anos têm surgido. "As salas de ensaio do 1º de maio foram o impulso que faltava á cidade. É essencial esse espaço onde jovens que partilham o gosto pela música possam criar".

Poucos minutos após eo final da minha conversa com o Zé Figueiredo começou o concerto mais esperado da edição deste ano do enterro da gata. Os Guano Apes subiam ao palco do gatódromo.
Não sou de todo fã dos Guano Apes, mas confesso que estava expectante.

Saiu-me o tiro pela culatra. Estava á espera de um concerto electrizante, em que saltasse do principio ao fim. Nada disso. Mais um concerto em piloto automático. Não tem ponta por onde se lhe pegue. Valeu para mim a "Open your eyes", que até é uma música porreira, e que deu pa eu libertar as minhas energias. Dois minutos aos saltos e uma hora a pensar como é possível os Guano Apes serem uma banda com sucesso global.

O rock continua hoje com os Wraygunn e os velhinhos UHF (quem não conhece os cavalos de corrida não é filho de boa gente).

Amanhã há mais notícias.

Fica aqui ainda um enorme agradecimento á organização do Enterro da Gata 2009, em particular á Ana Luísa Rego, pela boa vontade demonstrada ao facultar-me o acesso ao backstage. O fase berlinense agradece.

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Sábado, 9 de Maio de 2009

Bem vindos à idade adulta


Abandonem os delicados sonhos pop. Bem vindos à profundidade, complexidade e desespero da idade adulta. Dêm as boas vindas a Matt Johnson, o vosso anfitrião nesta viajem. Sejam pacientes pois ela é longa, mas a meu ver compensadora.

A pornografia do desespero

Uma das coisas que me fascinou no primeiro álbum dos Velvet Underground foi a doçura melódica com que eram transmitidas sensações líricas totalmente amargas ou completamente aprisionadas em gelo emocional, em conjunto com a luta de titãs entre Reed e Cale - com o primeiro a puxar para a melodia e para o pop, e o segundo a arrastar para a vanguarda e para o minimalismo.

Nas décadas que se seguiram, um autor, sob a capa da banda «The The» foi dos raros que me conseguiu transmitir novamente essa sensação doce/amarga do que afinal é viver; o viver que está longe dos tra-la-las platónicos da pop mainstream. Como podemos ler num ensaio que anda pela net «Pornography of despair: Lust, Desire, and the Music of Matt Johnson», «grande parte do apelo de Johnson reside nas contradições que evoca com letras sombrias e pesadas, sustentadas em melodias atractivas».

Mais que verter os seus maus fígados em letras, desancar as religiões institucionalizadas, ou lutar desesperadamente nos meandros do sofrimento espiritual e na tortura do desejo heterossexual masculino, Johnson toca onde dói, ou seja, nas permanentes contradições e deficiências de mapeamento entre o mundo interior e exterior do ser humano.

Não é que ele se preocupe muito em generalizar ou em colocar-se no lugar do outro, se bem que a simples visão das suas ruínas interiores e das suas opiniões é suficiente para lhe trazer muitas agruras:

Eu certamente não faço as coisas para ser falado ou para ser banido. Eu provavelmente vou parar de falar acerca disso[Religião e abusos dos poderes instituídos] por um tempo e começar a escrever sobre o meu assunto favorito: eu.
Johnson é incómodo, e totalmente avesso ao jogo da música comercial, o que ilumina um pouco as razões do seu quase desconhecimento do público em geral, e o degredo a que foi votada por exemplo a obra prima que é «NakedSelf».

Que tens andado a fazer, Matt?

A carreira de Matt Johnson começa em 81 com «Burning Blue Soul», ainda lançado em nome próprio, que é uma «obra prima de tormento e angústia», comparável a «Marble Index» de Nico, «Berlin», de Lou Reed, «Music for a New Society» de John Cale, «4» de Scott Walker ou «Closer» da Joy Division.

Após um álbum abortado por insatisfação artística de Johnson quando já havia milhares de cópias produzidas - falamos do disco «Pornography of Despair» ainda não editado, - Johnson volta em 83 com um grande álbum: «Soul Mining», segundo o autor o primeiro álbum sob a égide do Ecstasy; um álbum dançável, equilibrando-se entre «o optimismo do New Pop e o pessimismo da experimentação pós-punk». Este é o álbum New Wave dançante para quem prefere a semi-obscuridade do quarto e a garrafa de vodka à festa para a qual foi convidado. Um álbum com melodias «capazes de agradar ao homem do leite, mas com letras potencialmente causadoras de desarranjos intestinais».

Três anos depois, inchado de megalomania, Johnson propõe-nos a avaliação do desejo como doença, num álbum musicalmente complexo, levado aos extremos em vários sentidos, e no qual somos mais uma vez regados com o seu ácido lírico auto-depreciativo, por exemplo quando descreve em «Heartland» o Reino Unido como um cadáver devorado pela inveja, impotência, ganância e falhanço. «Infected», o título do ábum, é a palavra chave que explora o sentido de infecção sob vários prismas, que vão do próprio desejo, à sida, aos bébés-proveta, heroína e terrorismo nuclear. Tatcher e Reagan são os seus ódios de estimação. Não há tabu que se sustente.

Em «Mind Bomb», Johnson volta à carga, desta vez contra as religiões organizadas e os extremos a que chegou a sociedade de consumo e o espectáculo da política, como podemos ouvir em «Armageddon Days Are Here(Again)»:
Islam is rising,
the Christians mobilizing
the world is on its elbows and knees
it's forgotten the message and worships the creeds
ou em «Beat(en) Generation», que já tem a inconfundível marca de Johnny Marr(amigo de longa data) na guitarra:
And our youth, oh youth, are being seduced
by the greedy hands of politics and half truths

The beaten generation, the beaten generation
Reared on a diet of prejudice and mis-information
The beaten generation, the beaten generation
Open your eyes, open your imagination
Em 93 chega «Dusk», uma nova obra prima pop, com a presença de Johhny Marr cada vez mais vincada(«Slow emotion replay» é Smiths, sendo que Morrisey foi raptado por extra-terrestres e substituído por um vocalista digamos, menos delicado).

«Dusk» marca o meu primeiro contacto com os «The The». Aquele riff de guitarra e armónica de Marr em «Dogs of Lust» naquele vídeo com toda a banda a alagar-se em suor enquando canta «Here they come, the dogs of lust», foi uma daquelas dádivas que a MTV prostrou diante de mim, e me fez querer mais.

Todo o ábum gravita em torno do desejo e do tormento interior de Johnson, como transparece em várias canções, a começar por «True happiness this way lies», uma espécie de Credo versão Johnson:

Well, I've been crushing the symptoms but I can't locate the
cause.
Could God really be so cruel?
To give us feelings that could never be fulfilled. Baby!
I've got my sights set on you. I've got my sight set on you
And someday, someday, someday, you'll come my way.
But when you put your arms around me
I'll be looking over your shoulder for something new
'cause I ain't ever found peace upon the breast of a girl
I ain't ever found peace with the religion of the world
I ain't ever found peace at the bottom of a glass
sometimes it seems the more I ask for the less I receive.

Em «Slow emotion replay», Johnson assume a posição Socratiana de que quanto mais vê menos sabe:

So, don't ask me about
War, Religion, or God
Love, Sex, or Death
Because....

Everybody knows what's going wrong with the world
But I don't even know what's going on in myself.
E podíamos ir por aí além, mas se eu dissesse tudo o que me apetecia era um livro e não um post que estaria a escrever. Basta dizer que Johnny Marr disse que este é o álbum que gostou mais de fazer(com os dos Smiths incluídos).

Em 99, os «The The» têm um novo álbum pronto, «Gun Sluts», mas o pessoal da Epic recusa-se a edita-lo se Johnson não juntar umas cançõezinhas tra-la-la ao material extremamente pesado que este lhes mostra. Johnson é Johnson, logo o álbum nunca é editado.

O ano 2000 traz o último ábum dos «The The» à data, «NakedSelf». Este pode ser bem o último álbum dos «The The», e se for é o fecho digno da carreira deste magnífico homem-banda. «NakedSelf» é o ponto onde Johnson consegue cristalizar toda a evolução dos «The The», indo ao paradoxo que produzir um álbum agressivo e altamente incómodo, mas que o ouvinte atento e persistente vai polindo até atingir o núcleo melódico que caracteriza as composições dos «The The». No ensaio já referido podemos ler:
[NakedSelf] aglomera perto de 20 anos das tentativas de Johnson no sentido de criar uma paisagem musical que reflicta as suas inclinações enquanto activista que está preocupado com o impacto das forças globais na vida do indivíduo.
A temática deste álbum é sombria, desde o trabalho gráfico da embalagem, até às inevitáveis letras. «Diesel Breeze» é descrita no ensaio «Pornography of Despair» da seguinte forma:
O comboio de Johnson entra na cidade vindo de um qualquer buraco subterrâneo, num mundo de incerteza, medo e frieza onde o único recurso é negar os sentimentos de desespero e virar-lhe as costas.
A solidão é visitada em «The Whisperers», que também espeta o endoscópio bem fundo em algumas fragilidades da vida conjugal:
And now she wants to cry
Staying in on Friday night
Lying in her birthday suit
And listening to the bickering
From the room above
And wondering if it’s fear of loneliness or love
That keeps people like that together
Forever ...

Don’t get sad
When people that you trust stab you in the back
So, you thought they were your friends?
Now you know (now you know)
There’s one thing in life that holds
You’re on your own (you’ve gotta grow)
Sendo «NakedSelf» uma obra prima(concordemos ou não com as opiniões de Johnson), ainda mais uma obra prima mal conhecida e negligenciada pela editora, merece uma audição cuidada.

E?

«Luxúria, solidão, desespero e envelhecimento são algumas das emoções que Johnson emparelha com o desejo e, quando o seu trabalho é visto na totalidade, é claro que existem importantes conexões com o consumismo contemporâneo e a globalização». Eu não concluiria melhor.

Ps: Matt Johnson gravou em 95 um álbum de versões de Hank Williams, «Hanky Panky», um excelente álbum, no qual Johnson reinventa as canções de Williams de forma a serem elas próprias indistintas do restante património dos The The.

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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Submissão é ignomínia

A frase roubei-a ao quarto do Simão, o protagonista anti-beto desse sensacional filme que é Um Amor de Perdição. O conceito do argumento adaptado aos nossos tempos não é novo, já antes Baz Luhrmann tinha revisitado Shakespeare à luz dos 90's em Romeo + Juliet, no entanto resulta num excelente argumento e num grande filme, ao nível do Branca de Neve do João César Monteiro, filme que nunca vi, mas cá pra mim nem preciso de ver para saber que é genial.

Volto à frase só para dizer que somos todos submissos, nem que seja a um ideal. O que não deixa de ser uma tristeza.
E agora vou ver se leio o livro, que já não me lembro se fui obrigado a lê-lo na escola.

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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Electricidade ligada ao cérebro


«Os Pontos Negros» são uma banda de rock, uma boa banda de rock - electricidade ligada ao cérebro. O seu rock directo de guitarras, é servido neste show case da fnac do Chiado como deve ser sempre, purinho e directo da fonte.

O pretexto é o relançamento de «Magnífico Material Inútil», magnífico título que ecoa em mim a métrica de «Exploding Plastic Inevitable», três palavrinhas que Andy Wahrol roubou a Bob Dylan para o seu espectáculo multimédia. «Magnífico Material Inútil», a canção, é um clássico. Infecciosa como a Peste esta canção é uma das grandes músicas Pop dos últimos anos, com quatro malvados acordes que me trepam pelos dedos sempre que apanho uma viola à mão.

Do resto do álbum, gosto bastante de «Doutor, preciso de ajuda», e o «Conto de Fadas de Sintra a Lisboa» também é inescapável e qualquer ouvido que swingue. «Salomé», agora revelada, é uma bonita música para quando eu tiver outra vez quinze anos. Há um sentido lúdico e um prazer notório nesta banda em fazer esta música simples mas eficaz. Nem se nota a falta do baixo.

Abram-se os palcos que ao vivo esta banda cresce, e aí podemos mexer e saltar e dizer que é só Rock'n'Roll, e nós gostamos.

Com esta conversa deu-me uma sede de ir ouvir os Pavement.

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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Ilhas distantes


Há muito tempo que sou um ávido curioso, não só de música e de canções, mas também das motivações dessa música, dos processos que lhe dão origem e dos músicos que a fazem. Por isso não há ficha técnica que me escape ou detalhe escondido que o fique por muito tempo(mesmo alguns recados em disco ou em palco). Há muitos anos comprei em simultâneo os dois trabalhos de António Variações, e no segundo, «Dar e Receber», aquele que foi gravado pelos Heróis do Mar, não me escapou da ficha técnica um nome que conhecia de outras latitudes: Paulino Vieira.

Durante anos fui ouvindo falar desse músico, da sua importância como arranjador e produtor e multi-instrumentista. Há alguns meses atrás, uma entrevista de Tito Paris fez-me lembrar Paulino Vieira. Procurei pela net e no site do músico soube da sua auto-reclusão e mágoa perante um poder instituído na música cabo-verdiana, que no seu entender excluía a verdadeira música nacional em favor de adulterações comerciais. A minha curiosidade aumentou.

Pouco tempo depois, sorte ou destino, tive uma memorável conversa sobre Paulino, a música de Cabo Verde e também sobre música brasileira com uma pessoa que suspeito não andará longe de ser fã número um de Paulino. Abriu-se uma porta para que pudesse conhecer melhor esse génio, e também a verdadeira música de Cabo Verde. Nunca esquecendo esse desígnio, fui no entanto deixando o tempo passar, e espero que esse caminho que se abriu não esteja ainda fechado porque o interesse continua grande.

Há qualquer coisa na música de Cabo Verde que ecoa em mim, talvez porque tenha também incrustrado em si muito do DNA que também está presente na nossa música, e principalmente, muito do sentimento. Há algo de cativante nesse balançar das ilhas distantes, cuja cultura nos rodeia mesmo aqui em Lisboa, sem que lhe prestemos atenção(a não ser quando é descoberta em França).

Chegou o momento de ver e escutar com atenção.

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Fotografia

Afinal quem é que não vê bem a fotografia quem é? quem é???
Isto do eu bem disse não tem muita piada, mas só não viu o óbvio que está cego com uma qualquer estrela que supostamente iria cair do céu.

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Erudição campónia




Da entrevista de Tom Zé para a qual já apontei num post anterior, lembro-me de uma passagem em ele mencionava que a escrita de Guimarães Rosa era o que de mais parecido conhecia com o dialecto de português arcaico praticado no balcão da loja do seu pai no sertão da Baía. Os colegas acusavam-no de ser um pretenso intelectualóide por mencionar Guimarães Rosa, demasiado erudito para o comum dos mortais. Ele levou a música da roça para São Paulo e David Byrne achou que a sua música era parecida com o que se fazia na vanguarda Nova Iorquina. Desprezado pelo Brasil ele descobriu que a arte da pobreza mais pobre era a vanguarda em Nova Iorque.

Esta estória leva-me à minha infância e à aldeia vizinha de S.Lourenço.

Era difícil ir à missa aquela freguesia. Íamos algumas vezes nas actividades dos escuteiros, mas era certo e sabido que a coisa ia acabar em embaraço.

A razão de tal embaraço não era uma, mas duas. Em primeiro lugar aquela sineta ridícula que tocavam sempre que o padre fazia a consagração da óstia. Olhar para o infinito, pensar na morte de entes queridos ou em dores insuportáveis eram ferramentas à mão para evitar a risada descontrolada, mas tal esforço era inglório porque vinha o pior: o canto das mulheres do coro.

Nunca ninguém do mundo urbano e civilizado(a aldeia ao lado) tinha ouvido semelhante cacofonia de vozes com tão medonhos arranjos polifónicos. Os chefes enfiavam-se debaixo dos bancos perante a incapacidade de controlar o mal disfarçado 'hi hi hi' de toda a rapaziada ali presente, tal o ridículo daquelas cantarolices.

Pois vim há pouco tempo a ouvir as recolhas de Giacometti e, surpresa avassaladora, no cd de recolhas do minho vim a descobrir que os cantares de S.Lourenço de Sande são vanguarda em Lisboa. Juro a pés juntos que Giacometti recolheu aqueles cantares na missa de S. Lourenço. Tentei até em vão procurar os 'hi hi hi' na gravação, mas sem sucesso. Bem, se não foi em S. Lourenço foi em Santa Cristina, ou por ali, em Sande é que não foi.

Pois é, as voltas que a cultura dá.

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Kind of Blues




Logo à noite, para quem não diz que não a algo mais bluesy, «Casual Attraction» no OndaJazz. Entrada livre.

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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Woody Guthrie


«Woody Guthrie foi o meu último ídolo por ter sido o primeiro. Nunca encontrei ninguém que me dissesse, cara a cara, que os homens têm razão para o que fazem, pelo que qualquer acto deve ser posto em dúvida. Que há um milhão de razões e um milhão de desejos rugindo barbaramente e que, muitas das vezes, não se encontram mutuamente. Que ídolos invisíveis criam mediocridade e pisam as esperanças quando degeneram. Woody nunca me fez ter medo e não pisou nenhuma esperança porque tinha um livro de homens e deixou-mo ler...»

Escrito por Bob Dylan após o encontro com Woody Guthrie

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Sábado, 2 de Maio de 2009

All Tomorrow's Parties


Inevitavelmente comecei a ouvir os Velvet Underground através do óbvio "The Velvet Underground And Nico" (ou disco da banana). Era muito muito novo e a maior parte daquelas coisas(as que percebia) passavam-me ao lado. Uma das músicas que nessa minha iniciação me prendeu foi "femme fatale". Acho que foram aquela voz e aquela melodia quase infantil que me agarraram. Uma Nico no seu melhor, com aquela maneira de cantar que eu nunca mais ouvi, e provavelmente não ouvirei, quase a chamar por nós deixou-me colado ao Sony lá de casa durante muitas e muitas horas.

Nesse álbum está uma das músicas que mais admiro dos VU. All tomorrow's Parties. Gosto de todas do disco, gosto de quase todas dos VU, mas All tomorrow's Parties toca-me de uma maneira brutal. Crua e "cinderélica" (se me é permitido dizer isto) bate-me de frente e, não tenho vergonha de o dizer, vai-me direito ao coração. Mais uma vez, a voz de Nico e aquele jeito de cantar em muito contribuem para esta opinião. Já a ouvi pla voz do Lou Reed, e não é, definitivamente, a mesma coisa.

Podia aqui falar da Heroin, Sunday Morning, I´ll be your mirror e todas as outras músicas do disco, mas All Tomorrow's Parties merece de mim estas palavras.

P.S. - um pequeno toque na sineta pa dizer que Heroin é provavelmente a melhor música feita até hoje (rivaliza com There's a Ligth That Never Goes Out, mas aí é a minha veia Smiths a falar, ou então com o The End dos Doors, mas se continuo com isto faço aqui um top 10 e não me custa nada)

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Cuidado com a Mimi


Sinto-me na Caverna de Platão quando oiço o B Fachada. Diante de mim desfilam personagens informes do bas fond boémio, misturados com cantadeiras de trás-os-montes e com os fantasmas de tantos dissidentes do mainstream. Lá ao fundo uns acordes dissonantes de conversas de café, cá à frente uma voz de lamento, que descreve mas não concede à interpretação.

Dia 30 de Abril de 2009 foi a apresentação do novo trabalho de B Fachada, «Um fim de semana no pónei dourado». Estive no concerto no Maxime, merecidamente cheio perante um Fachada aparentemente incrédulo, lembrando o seu primeiro concerto no mesmo espaço, com menos gente, e com menos reportório. Infelizmente vi tudo junto ao bar e não consegui ouvir com a nitidez que desejava, mas Fachada, com o seu ser a nu, foi desfiando o novelo da sua arte com aquela postura que o tornaria interessante mesmo sentado no meio do palco acompanhado únicamente com palmas.

O álbum, após várias audições(já disse antes que não confio na primeira), perde o artesanato de «Viola Braguesa» que o colocava simbólicamente entre os camponeses que cantavam nos seus árduos trabalhos as agruras da sua jorna, mas ganha um alcance maior numa abordagem arrojada e não certamente atraente aos ouvidos de todos, cheio de subtilezas sónicas e acordes desconcertantes.

Na minha caverna, vou observando as sombras que passam diante de mim, ouvindo as suas vozes, tentando a pouco e pouco construir as minhas imagens a partir das palavras e (des)construções musicais de B Fachada. Terminado esse processo, esta será a minha música de B Fachada, porque a construí eu, e já não lhe pertence.

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